domingo, 15 de julho de 2007

- Åŋﮊo que chora...


“Felizmente também havia exceções a isso, na maior parte das vezes quando tu sofrias em silêncio e o amor e a bondade superavam com sua força qualquer oposição e comoviam de maneira imediata. (...) Nesses momentos a gente ia se deitar e chorava de felicidade, e chora ainda agora enquanto escreve.”

Franz Kafka

Lendo uma carta de Franz ao seu pai essa semana em que ele contava várias coisas, dentre elas como ele - Kafka - se emocionava, como chorava de alegria com alguns raros acontecimentos relacionados ao pai e como chorava ainda no momento em que escrevia a carta, apenas pela lembrança do momento. O Åŋﮊo quis saber o que é isso que às vezes deixa um nó na garganta, embaça a visão e faz com que um arrepio tome conta de todo o corpo com se não fosse cessar mais.

Hoje à tarde o Åŋﮊo ouviu Elza Soares, esposa do Anjo das pernas tortas - aquele a quem acusavam ter um pacto com o Diabo, mas que concluíram que ele tinha mesmo era um acordo com Deus – cantando o Hino Nacional Brasileiro, nesse momento eu pensava como é possível a emoção, perturbar-se, abalar-se, comover-se, intensificar um sentimento...

O Åŋﮊo há muito tempo não chorava, disse pra si mesmo na tua infância que chorar não era coisa de homem, chorar pra quê? Não tinha motivo nenhum, associara o choro diretamente à dor, vergonha, tristeza... Por isso não tinha nem um motivo pra isso, sempre foi feliz, confesso, sempre. Já fui acusado por isso também, acusado por não ter nenhum problema, por ter uma família perfeita. De onde eu tiraria dor para chorar, até já quis, mas não havia lágrima e segundo minha velha concepção, não tinha nem motivo.

Quando criança chorava, chorava muito e tinha vergonha. Lembro-me de ter chorado dentro de sala de aula, por não ter conseguido acompanhar o ritmo da professora. Ela apagando e eu entrando em desespero. Antes disso lembro-me de ter chorado porque uma “tia” do jardim de infância, brincando com todas as crianças, abaixava a cabeça e fingia um choro cantado, eu chorava pedindo para que as outras crianças saíssem de perto dela.
Mas nunca um choro de felicidade, uma razão para chorar.

Entretanto isso passou, o Åŋﮊo já chora por qualquer sinal de felicidade. Algo que comova e tome conta da alma. A alma sente um ato de bondade, os olhos choram. A alma sente orgulho, os olhos choram. A alma sente dor, os olhos choram. Os olhos choram com facilidade agora, mesmo quando os olhos não choram, mas ficam no quase... o Åŋﮊo sabe que algo bom está acontecendo. O Åŋﮊo sente que aquela velha história de sentir que está vivo, contado os momentos em que se perde o fôlego, Ah! Acreditem, é a mais pura verdade.

Um comentário:

  1. Bem achei que não voltaria mais...
    Um anjo que aprendeu a chorar...
    Já pedi, repito...

    Conte-me uma estoria de amor?

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